Primeira parte - Capítulo LI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 52 de 271
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Primeira parte - Capítulo LI

Em que particularmente se explica a Baía do Rio de Janeiro da ponta

do Pão de Açúcar para dentro.

É tamanha coisa o Rio de Janeiro da boca para dentro, que nos

obriga a gastar o tempo em o declarar neste lugar, para que se veja

como é capaz de se fazer mais conta dele do que se faz.

E comecemos do Pão de Açúcar, que está da banda de fora da

barra, que é um pico de pedra mui alto, da feição do nome que

tem, do qual, à ponta da barra, que se diz de Cara de Cão, há pouco

espaço; e a terra, que fica entre esta ponta e o Pão de Açúcar, é baixa e chã; e virando-se desta ponta para dentro da barra se chama

Cidade Velha, onde se ela fundou primeiro. Aqui se faz uma enseada, em que podem surgir navios, se quiserem, porque o fundo

é de vasa, e tem cinco, seis e até sete braças. Esta enseada se chama

de Francisco Velho, por ter aqui sua vivenda e granjearia, a qual

é afeiçoada em compasso até outra ponta adiante, que se chama

da Carioca, junto da qual entra uma ribeira, que se chama do mesmo nome, donde bebe a cidade. Da ponta da Cara de Cão à cidade

pode ser meia légua; esta ponta de Cara de Cão fica quase em padrasto da lájea, mas não é muito grande por ela não ser muito alta.

A cidade se chama São Sebastião, a qual edificou Mem de

Sá, num alto, numa ponta de serra que está defronte da Ilha de

Viragalham, a qual está lançada deste alto por uma ladeira abaixo;

e tem em cima, no alto, um nobre mosteiro e colégio de padres da

companhia, e ao pé dela uma estância com artilharia para uma

banda e para outra, um modo de fortaleza numa ponta, que defende o porto, mas não a barra, por lá não chegar bem a artilharia.

Ao pé desta cidade, defronte da ponta do arrecife dela, tem bom

surgidouro, que tem de fundo cinco e seis braças, e chegando-se

mais à terra tem três e quatro braças, onde os navios têm abrigo

para os ventos gerais do inverno, que são sul e su-sueste. E quem

quiser ir para dentro há de passar por um banco, que tem de preamar até vinte palmos de água; e passando este banco, virando para

detrás da ponta da cidade, acharão bom fundo, onde os navios

estão seguros de todo tempo, por a terra fazer aqui uma enseada.

E quando os navios quiserem sair deste porto carregados, hão de

botar fora por entre a ilha e a ponta da terra firme, pela banda do

norte, e hão de rodear a ilha em redondo para tornarem a surgir

defronte da cidade, e surgirem junto da Ilha de Viragalham, entre

ela e a cidade; no qual lugar acharão de fundo três braças, e três e

meia, onde tem porto morto e defronte desse porto é o desembarcadouro da cidade, onde se diz as casas de Manuel de Brito.

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