Universo da obra
Universo da obra
C
omo todas as coisas têm fim, convém que tenham princípio, e como o de minha pretensão é manifestar a grandeza, fertilidade e outras grandes partes que tem a Bahia de Todos
os Santos e demais Estados do Brasil, do que os reis passados tanto
se descuidaram, a El-Rei Nosso Senhor convém, e ao bem do seu
serviço, que lhe mostre, por estas lembranças, os grandes merecimentos deste seu Estado, as qualidades e estranhezas dele, etc.,
para que lhe ponha os olhos e bafeje com seu poder, o qual se engrandeça e estenda a felicidade, com que se engrandeceram todos
os Estados que reinam debaixo de sua proteção, porque está muito
desamparado depois que El-Rei D. João III passou desta vida para a
eterna, o qual principiou com tanto zelo, que para o engrandecer
meteu nisso tanto cabedal, como é notório, o qual se vivera mais
dez anos deixara nele edificadas muitas cidades, vilas e fortalezas
mui populosas, o que se não efetuou depois do seu falecimento,
antes se arruinaram algumas povoações que em seu tempo se fizeram. Em reparo e acrescentamento estará bem empregado todo
o cuidado que Sua Majestade mandar ter deste novo reino, pois
está capaz para se edificar nele um grande império, o qual com
pouca despesa destes reinos se fará tão soberano que seja um dos
Estados do mundo porque terá de costa mais de mil léguas, como
se verá por este Tratado no tocante à cosmografia dele, cuja terra
é quase toda muito fértil, mui sadia, fresca e lavada de bons ares e
regada de frescas e frias águas. Pela qual costa tem muitos, mui seguros e grandes portos, para nele entrarem grandes armadas, com
muita facilidade, para as quais tem mais quantidade de madeira
que nenhuma parte do mundo, e outros muitos aparelhos para se
poderem fazer.
É esta província mui abastada de mantimentos de muita
substância e menos trabalhosos que os de Espanha. Dão-se nela
muitas carnes, assim naturais dela, como das de Portugal, e maravilhosos pescados; onde se dão melhores algodões que em outra
parte sabida, e muitos açúcares tão bons como na Ilha da Madeira.
Tem muito pau de que se fazem as tintas. Em algumas partes dela
se dá trigo, cevada e vinho muito bom, e em todas todos os frutos
e sementes de Espanha, do que haverá muita qualidade, se Sua
Majestade mandar prover nisso com muita instância e no descobrimento dos metais que nesta terra há, porque lhe não falta ferro,
aço, cobre, ouro, esmeralda, cristal e muito salitre; e em cuja costa
sai do mar todos os anos muito bom âmbar; e de todas estas e outras podiam vir todos os anos a estes reinos em tanta abastança,
que se escusem os que vêm a eles dos estrangeiros, o que se pode
facilitar sem Sua Majestade meter mais cabedal neste Estado que
o rendimento dele nos primeiros anos; com o que pode mandar
fortificar e prover do necessário à sua defesa, o qual está hoje em
tamanho perigo, que se nisso caírem os corsários, com mui pequena armada se senhorearão desta província, por razão de não estarem as povoações dela fortificadas, nem terem ordem com que
possam resistir a qualquer afronta que se oferecer, do que vivem
os moradores dela tão atemorizados que estão sempre com o fato
entrouxado para se recolherem para o mato, como fazem com a
vista de qualquer nau grande, temendo-se serem corsários, a cuja
afronta Sua Majestade deve mandar acudir com muita brevidade,
pois há perigo na tardança, o que não convém que haja, porque se
os estrangeiros se apoderarem desta terra custará muito lançá-los
fora dela pelo grande aparelho que têm para nela se fortificarem,
com o que se inquietará toda Espanha e custará a vida de muitos
capitães e soldados, e muitos milhões de ouro em armadas e no
aparelho delas, ao que agora se pode atalhar acudindo-lhe com a
presteza devida. Não se crê que Sua Majestade não tenha a isto por
falta de providência, pois lhe sobeja para as maiores empresas do
mundo, mas de informação do sobredito, que lhe não tem dado
quem disso tem obrigação. E como a eu também tenho de seu
leal vassalo, satisfaço da minha parte com o que se contém neste
Memorial, que ordenei pela maneira seguinte.
Leia gratuitamente Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, obra fundadora da literatura e da historiografia colonial brasileira em domínio público. Edição digital em capítulos para leitura online no Literunico, com fonte pública da Fundação Darcy Ribeiro, referência BBM/USP e Wikisource, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.